quarta-feira, 13 de maio de 2015

INIMIGOS DE MESMO SANGUE

Violência contra os idosos
por Luce Pereira/arte Jarbas

No comercial de margarina, de roupa cheirosa, de fundos de previdência privada, avós aparecem como o suprassumo da felicidade e do respeito. Na vida real, no entanto, grande parte dos idosos é simbolizada por outro tipo de publicidade, aquela que governos e instituições públicas usam, aqui e ali, na tentativa de estancar o flagelo da violência. Nos VTs, eles surgem fragilizados e humilhados, reféns de um afeto que se transformou e deixa cicatrizes no corpo e na alma. Escondidos pelo silêncio e por uma intimidade geralmente apenas devassada pela desconfiança e indignação de vizinhos, o exército de subjugados pela truculência de covardes travestidos de cuidadores só cresce. Com o agravante de que esses algozes respondem pelo nome de parentes.

Amplo estudo feito pela Central Judicial do Idoso, com base em números de 2013 obtidos por diversos órgãos e instituições ligados ao poder público, em Brasília, apontou 550.57 ocorrências por cem mil habitantes, sendo que em 59% delas os filhos são os agressores e em 60,3% dos casos, as mulheres aparecem como maiores vítimas. Só a título de ilustrar a violência sofrida dentro de casa por essas pessoas, basta dizer que os registros subiram de 2.089, em 2012, para 3.052, em 2013, segundo o Mapa da Violência Contra a pessoa Idosa no DF, onde estão compilados e analisados todos estes números.

As agressões são tão recorrentes e preocupantes que até viraram tema de novela, onde se via um casal de idosos “comendo o pão que o diabo amassou” nas mãos de uma neta fútil e malvada. Para tristeza de quem torce sempre por finais felizes, no entanto, jovens intolerantes ao extremo com avós velhos e dependentes não fazem parte apenas de obras de ficção. Segundo o Mapa da Violência, netos estão na pele de 8% dos algozes, o que mantém as conclusões no mesmo nível de impacto – porque filhos e descendentes deles costumam representar o que, em tese, seriam os frutos mais doces e mais sadios da árvore da família. Quando, naturalmente, o conceito de família se mantém preservado.

Perfeitamente compreensível seria acreditar que se trata de um fenômeno novo, surgido com a mudança brusca nos padrões de comportamento da sociedade. Mas, não: em meados da década de 1970, Baker já realizava pesquisa acerca da violência intrafamiliar sobre “espancamento de avós”, enquanto, no Brasil, essas pesquisas só começariam a ganhar corpo nos anos 1990.

Até agora, não há consenso sobre as causas da escalada da violência intrafamiliar contra idosos, mas números colhidos em países da Europa que vivem o mesmo problema podem reforçar ainda mais as semelhanças de comportamento entre o Brasil e Portugal. Numa lista de 53 nações do continente, a pátria-mãe aparece entre as cinco piores, neste quesito, apontadas pelo Relatório de Prevenção Contra Maus Tratos a Idosos, da Organização Mundial de Saúde (OMS). No trabalho, está na companhia da Sérvia, da Áustria, de Israel e da República da Macedônia, onde as práticas são as mais violentas: tortura psicológica, bofetadas, murros, socos e queimaduras pelo corpo, entre outras.

O recrudescimento de práticas inadmissíveis, covardes, cruéis não coloca em xeque as conquistas do Estatuto do Idoso (2003), mas sinaliza que o país ainda não deu os passos mais largos para encurralar e inibir agressores. Até agora, tem-se a impressão de que protegidos seguem eles, uma vez que a própria lei abre espaço para interpretações sobre os conceitos de tortura e maus tratos. O saldo disso não poderia ser outro: impunidade.


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Fonte: Diario de PE


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