domingo, 22 de dezembro de 2013

Agente de saúde escapou por pouco de queda de muro em Sorocaba, SP

‘Nunca mais terei Natal’, diz mulher que perdeu filhas e neto em tragédia
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‘Nunca mais terei Natal’, diz mulher que perdeu filhas e neto em tragédia
Agente de saúde escapou por pouco de queda de muro em Sorocaba, SP. Segundo a empresa, apoio é oferecido às famílias e vítimas.

Jéssica Pimentel e Natália de Oliveira Do G1 Sorocaba e Jundiaí

 A noite do dia 20 de dezembro de 2012 vai ficar para sempre na memória da agente de saúde Terezinha Maria Marquine Airola, de 50 anos. Ela é sobrevivente do desabamento de parte do muro da antiga fábrica Cianê, que estava sendo reformado para abrigar um shopping center.

Entre as sete vítimas, três pertenciam à família de Terezinha. A agente de saúde estava dois carros à frente do veículo onde estavam as filhas Nhayara Airola, de 25 anos, e Evelin Cristina Siqueira, de 30 anos, além do neto Tiago Alves Siqueira, de 5 anos.

erezinha conta que depois do acidente passou a tomar antidepressivos e calmantes para tentar conviver com a dor que a perda de parte da família deixou.

“Eu perdi três membros da minha família. Ninguém faz ideia de quanto isso dói. Aqui em casa não há mais festas de fim de ano, não há mais ânimo para nada. Não comemoramos mais o Natal, época que era importante para todos estarmos reunidos”, lamenta.

Segundo ela, a queda do muro foi muito rápida e quase não foi possível ver o que estava acontecendo.

“Nós fomos ao Centro para comprar presentes de Natal. No caminho eu decidi ultrapassar o carro em que eles estavam e passei para a faixa da esquerda. De repente, senti um tremor e só vi a fumaça densa. Foi um choque. E ainda parece que foi ontem”, diz.

 Em entrevista ao G1 ela contou que nos dois primeiros meses recebeu ajuda da construtora  responsável pela obra, como atendimento psiquiátrico, psicológico, medicamentos e até transporte para as consultas, mas depois disso teve que arcar sozinha com as despesas. “Um belo dia fui até a farmácia comprar os remédios e fui informada de que a empresa não pagaria mais. Não recebi sequer um telefonema para me avisar sobre isso. É um absurdo”, afirma.

Terezinha diz que gasta R$ 500 por mês com os medicamentos. Na tentativa de um acordo, a empresa ofereceu uma indenização de R$ 170 mil, mas Terezinha não concordou com o valor e aguarda na Justiça uma decisão. “Não é por dinheiro, mas é porque eu perdi a alegria de viver. Isso não custa dinheiro”, diz.

 Apesar da dor, Terezinha ainda acredita em justiça. “Espero que os responsáveis entendam a dor dos familiares que perderam seus entes queridos. Eu quero justiça e ainda tenho fé de conseguir”, conclui.

Por meio de nota oficial, a assessoria de imprensa do Pátio Cianê, empreendimento que foi construído na antiga fábrica onde o muro desabou, lamentou o ocorrido e informou que, desde o primeiro momento, ofereceu apoio às vítimas e parentes com auxílio médico, psicológico, logístico e financeiro. "Podemos adiantar que dois acordos já foram homologados e outros devem ser finalizados no próximo ano. Estamos à inteira disposição para que todas as famílias e vítimas tenham suas causas resolvidas o mais breve possível", finaliza a nota.

A animação abaixo mostra como ficou o muro no dia seguinte ao desabamento e como está agora com a obra finalizada, um ano depois.

Mais de um responsável
O desastre completa um ano nesta sexta-feira (20) e, apesar do inquérito policial ainda não estar concluído, a delegada responsável pelo caso, Daniela Lara de Góes, antecipa que há vários responsáveis pela tragédia. "Não foi um item apenas, foi um conjunto de fatores que levaram à queda do muro. Mais de uma pessoa atuou na execução desses serviços", diz.

 Daniela acrescenta que o inquérito está perto do fim e só não foi concluído por causa da dependência de outros órgãos. "Está na fase final. Conseguimos evoluir bastante, mas estou dependendo ainda de um laudo complementar da Polícia Técnica Cientifíca e uma decisão com relação ao processo administrativo do Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia)", explica a delegada.

Com o laudo final, Daniela acredita que irá conseguir definir a atribuição de cada profissional na obra, principalmente nos fatores que contribuíram na queda do muro. "Vou poder identificar aquelas pessoas que tiveram a responsabilidade criminal na ação ou na omissão daquilo que deveria ser feito no local." Segundo ela, a conclusão do inquérito está perto do fim.

 Durante os 12 meses de investigação, mais de 30 pessoas já foram ouvidas, entre técnicos, engenheiros, policiais que estavam no local no dia do acidente e parentes das vítimas. "Ainda falta uma pessoa para ser ouvida, um arquiteto que era o responsável pela demolição do empreendimento. Ele se desligou da empresa e, por isso, estamos tendo dificuldade em encontrá-lo."

Assim que forem identificados os responsáveis criminais pela queda do muro, eles serão indiciados e encaminhados ao Ministério Público. "A pena vai depender da medida de atuação da pessoa, se ela teve grande ou pequena interferência, se a omissão, por exemplo, teve uma grande repercussão no caso. A pena será dividida individualmente", finaliza Daniela que ainda não pode citar os nomes apontados como responsáveis por causa do sigilo nas investigações. g1.globo.com/sao-paulo/sorocaba-jundiai