quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Como melhorar a abordagem dos usuários de drogas?

Divulgação do Jornal dos Agentes de Saúde do Brasil

Novo curso “Diminuir para somar: capacitação em redução de danos sobre álcool e outras drogas” visa a ajudar os agentes comunitários de saúde a melhorar a abordagem de usuários de drogas e o prosseguimento dos casos.
Por Andrea Domínguez
No seu trabalho cotidiano, os agentes comunitários de saúde (ACS), componentes das equipes de Saúde da Família, têm percebido que o uso abusivo de álcool, maconha, cocaína e crack faz parte do cotidiano de muitos moradores das comunidades atendidas. Na realidade, as drogas estão presentes no dia-a-dia das famílias assim como outros problemas de saúde, como a diabetes, a tuberculose, a dengue e as doenças cardíacas. Só que, por ser um tema tabu, as pessoas não tratam do assunto.
Segundo Fabiana Lustosa, Coordenadora Psicossocial da Viva Comunidade, o tema do uso de drogas precisa de mais atenção nas comunidades. “As pessoas que usam álcool e outras drogas estão aí e os ACS muitas vezes até as cadastram como pacientes, mas a problemática das drogas acaba sendo colocada de lado. Os ACS abordam as outras patologias, mas não perguntam sobre o problema de álcool”, explica a psicóloga.
Diante deste contexto, surge a questão: será que os ACS estão preparados para lidar com o tema da dependência química e as dificuldades e impasses aí envolvidos? A resposta é não. Mas por pouco tempo. A organização social de saúde Viva Comunidade, em parceria com a Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil (SMSDC) do Rio de Janeiro, desenvolveu o curso “Diminuir para somar: capacitação em redução de danos sobre álcool e outras drogas”, especificamente pensado para os ACS.
A Coordenadora de Saúde Mental do município do Rio, Pilar Belmonte, explica que o objetivo é capacitar todos os ACS como redutores de danos, fornecendo as ferramentas necessárias para que eles consigam lidar com os múltiplos casos de abuso de álcool e outras drogas nas comunidades. “Em uma primeira fase capacitaremos 50% dos agentes, mas a idéia é que com o tempo todos eles virem redutores de danos”, frisa Pilar.
O primeiro passo para fornecer aos ACS as ferramentas para lidar com essa questão foi a cartilha de redução de danos “Diminuir para somar”, lançada em abril desse ano. A segunda ação é este curso, cuja primeira turma teve início neste mês de agosto, que busca ajudar os ACS a internalizar os princípios básicos da redução de danos.
Neste primeiro momento, 210 agentes participarão do curso. Estes profissionais pertencem à área 3.3 do Rio de Janeiro, que possui o maior número de bairros na cidade (29 no total) e uma população de 965.000 habitantes, de acordo com o censo de 2006. “A gente pensou em começar com a área 3.3 justamente por ser a área com menos recursos com relação ao tema de álcool e drogas e também a mais carente sob o ponto de vista socioeconômico – possui o segundo IDH mais baixo da cidade”.
Dos três Centros de Atenção Psicosocial de Álcool e Outras Drogas (CAPS-AD) que existem no município do Rio de Janeiro, nenhum se encontra na área 3.3. “É claro que a área precisa de equipamentos especializados, porém, um dos aspectos que almejamos é estimular atitudes mais proativas pelo ACS. À medida que eles começam a discutir estas questões nas suas reuniões de equipe e, consequentemente, passam a levar as necessidades identificadas aos fóruns, eles fomentam a discussão bem como a criação de estratégias para lidar com os problemas. Mas não é só isso o que procuramos. Queremos que os ACS ampliem sua visão e tenham melhores ferramentas para atender os problemas de álcool e outras drogas dentro das suas equipes, sem necessariamente precisar referir os casos aos especialistas”, frisa Fabiana.
Parar para pensar
Os conteúdos do curso foram desenvolvidos com a assessoria de três especialistas no tema. Um deles é a psicóloga e mestre em Educação Christiane Sampaio, que faz parte da Associação Carioca de Redutores de Danos e trabalha tanto na área de pesquisa, quanto no campo.
“Para vocês, o chope é uma droga, um veneno, um remédio ou nenhuma das anteriores?”, pergunta Christiane aos agentes na primeira aula, numa tentativa de desmistificar o conceito de drogas. De todos os cantos da sala chegam respostas e risos: “é um remédio pra minhas tristezas!”; “é veneno, não posso beber”; “é droga, sim, meu marido é viciado em chope e churrasco”; “não é nada disso, não, é um refresco”.
Com um exercício simples, Christiane começa a trabalhar lentamente as generalizações, os preconceitos, o senso comum e os rótulos que norteiam não só as atitudes dos ACS, mas também da maioria das pessoas. Para ela, que já esteve à frente de trabalhos com usuários de drogas, realizando abordagens ou acompanhamentos clínicos, a formação dos ACS sobre a temática das drogas é fundamental.
“O ACS é o principal apoio dos médicos e psicólogos na temática das drogas no campo porque ele tem a capacidade de atender aos usuários de drogas no próprio espaço comunitário e pode incorporar a pessoa não só ao tratamento do uso de drogas, mas ao cuidado da saúde em geral. Em outras palavras, o ACS pode ser alguém que faz o elo de ligação entre esses usuários de drogas e o próprio serviço de saúde mental”, explica.
Além de desconstruir os mitos e rótulos relacionados aos usuários de drogas, os ACS serão orientados para melhorar a abordagem com este público. Eles aprenderão, por exemplo, como oferecer um melhor acompanhamento aos casos de usuários de drogas e, por fim, vão também conhecer as diferentes opções de encaminhamento para aqueles usuários que precisam paralelamente de outros serviços, sejam eles os ambulatórios especializados, os grupos de mútuo apoio, entre outras opções.
Mas por que redução de danos?
Pilar explica que a redução de danos é uma ferramenta muito útil para o trabalho dos ACS porque ela não condiciona a atenção do paciente à abstinência absoluta da droga, como ocorre nas comunidades terapêuticas ou outros dispositivos. “A redução de danos começa a tratar o paciente sem colocar condições e o enxerga como um ser integral; não como um ser “drogado”, mas como alguém que “usa uma droga”. Ao enxergar todos estes aspectos, o redutor de danos começa a lidar com as questões de saúde em geral do sujeito e, aos poucos, vai construindo uma relação de confiança com ele para, posteriormente, trabalhar o tema das drogas em si”, explica a Coordenadora de Saúde Mental.
Outro profissional que assessorou a criação do curso é o psicólogo Ary Fialho de Menezes, servidor da Secretaria Municipal de Saúde que trabalha com usuários de drogas na Policlínica Carlos Alberto Nascimento, na Zona Oeste do Rio. Para Ary, a redução de danos historicamente tem se mostrado como uma metodologia que pode ser aproveitada em programas implementados na comunidade. “Os próprios programas de redução de danos têm, em suas origens, um foco muito forte no trabalho na comunidade: tanto de trabalhar com usuários de drogas lícitas e ilícitas que existem na comunidade como oferecer aconselhamento, insumos, orientação para essas pessoas na própria comunidade”. Ary explica que como os agentes comunitários de saúde já estão inseridos na comunidade, inclusive de uma forma até afetiva, são pessoas que podem aplicar a metodologia da redução de danos no seu próprio trabalho.
A redução de danos teve seu início na Inglaterra, em 1926, quando se estabeleceu como princípio médico a possibilidade de prescrever legalmente opiáceos para os dependentes destas drogas, entendendo esta ação como parte do tratamento e não como uma gratificação da dependência à droga. Nos anos 80, o princípio de ajudar os usuários de drogas injetáveis a fazer um uso seguro das seringas para prevenir a transmissão, por exemplo, da Hepatite, consolidou a redução de danos, que teve sua importância comprovada nas grandes campanhas para a prevenção do contágio do HIV, também entre usuários desse tipo de drogas.
Fabiana explica que, num primeiro momento do curso, a ideia é desmistificar o conceito de redução de danos, que ainda não é bem compreendido por muitos. “As pessoas têm dificuldade de entender o que é redução de danos. Às vezes as pessoas se restringem a entender que é um incentivo ao uso de drogas e não vislumbram as outras etapas desta metodologia; visualizam apenas a distribuição de insumos para que os dependentes façam um uso menos prejudicial. O que queremos é mostrar a redução de danos de uma maneira mais ampliada e fazer com que os ACS vejam que é possível realizar redução de danos dentro da Estratégia Saúde da Família. Não é um trabalho que tem de ficar restrito aos especialistas”, explica a psicóloga.
Por sua parte, Christiane diz que está apresentando para os ACS um conceito de redução de danos “como uma forma de enxergar o uso das drogas e não apenas como uma ação sanitarista de diminuir riscos. A redução de danos é uma forma de olhar a questão das drogas de uma forma mais reflexiva, menos autorreferenciada, mais compartilhada com esse outro que é o usuário”, frisa a especialista.
Sem dúvida nenhuma
Para os ACS não há duvidas sobre a importância de aprender a lidar com esse tema. Luciana dos Reis trabalha como agente comunitária de saúde há seis anos no CMS Carlos Cruz Lima e, ao falar depois da primeira aula do curso, reconhece que “o tema da droga é mesmo muito importante no nosso trabalho. Tem muito uso de álcool, muito uso de crack, mas eles não assumem. Ficam com vergonha, saem de casa, vão embora para usar em outros lugares. A gente fica sabendo pela família, só que não conseguimos acompanhar os casos”.
Tatiane Maria, colega da Luciana na mesma unidade, explica que, além dos usuários de álcool e outras drogas nas famílias atendidas por elas, também há o uso de crack por parte dos moradores de rua. “As pessoas lá costumam pedir muita camisinha. Aí, através desse contato com eles a gente tenta levá-los para a unidade, porque lá tem tratamento odontológico e consulta médica. Mas ainda o número de usuários de drogas que a gente atende é pouco porque a maioria das pessoas que usa crack fica no barracão, na rua e não mora na comunidade. Então a cada dia é gente diferente e é difícil acompanhar esses casos”, explica.
Luciana acrescenta que os ACS estão tentando acompanhar os casos que existem em suas próprias famílias: “a gente busca ajudar com nossos superiores, os enfermeiros e os médicos. Mas com os moradores de rua fica mais difícil. Eles estão praticamente invisíveis. Hoje você vai lá e fala com um deles e amanhã é outro que está ali”, reconhece. Junto com os demais colegas da aula, elas manifestaram nesse primeiro dia do curso as suas preocupações principais: como abordar usuários de drogas na rua; como tocar no tema com as famílias; como lidar com a questão em comunidades que têm tráfico e para onde encaminhar aqueles que precisam de um tipo de ajuda mais especializada.
“Às vezes é muito difícil porque você até consegue falar do tema com um dependente, ele decide se tratar e vem pedir ajuda. Eu já precisei encontrar um lugar para uma pessoa que queria se tratar e não consegui vaga em lugar nenhum, ficou num pingue-pongue de lá pra cá. Então uma das coisas que eu gostaria de aprender aqui é isso: saber como fazer para que eles realmente recebam a ajuda que precisam”, reclama Luciana.
Na última fase do curso, os ACS poderão compartilhar seus casos concretos junto com a turma e os professores, a fim de analisar as possibilidades de cada um e, assim, ver na prática como poderiam começar a ser aplicados os conteúdos do curso.
Via de mão dupla
Não só os ACS se beneficiarão dessa aprendizagem, mas sim a equipe toda e, em última instância, o próprio sistema. Como explica Ary, “para os profissionais de saúde que estão acostumados a trabalhar com usuários de drogas é muito importante a parceria com os ACS para podermos conhecer as comunidades onde eles estão trabalhando. Esse é um dos grandes benefícios da união entre os profissionais que trabalham com usuários de drogas e os ACS. A minha ideia é tentar tanto trazer para eles o que eu conheço, quanto dar abertura para eles trazerem também as questões dos locais onde eles trabalham para podermos tratar juntos as questões”.

Em breve, haverá um curso adaptado às necessidades dos outros integrantes das equipes da Estratégia Saúde da Família. Boa aula e boa prática!


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Fonte na web: www.vivacomunidade.org.br